13 de junho de 2013

O "mico" de Jovino Costa Leão - por Fernando Florêncio


Jovino Costa Leão era meu padrinho de crisma.

Comerciante, com endereço mais ou menos na metade da ladeira que dava acesso ao

Grupo Escolar General Joaquim Inácio. (Até hoje não sei o que este General significou para Custodia.)
O Padrinho tinha uma bodega, na qual comercializava cereais. Naquela época se chamava de Secos e Molhados. Comprava também produtos próprios da região, tais como, Couro de Bode, Couro de Boi, que seriam revendidos, curtidos e utilizados na fabricação de sapatos, selas e arreios para vaqueiros.

Comprava também para revender à SANBRA (Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro) algodão em pluma e mamona em caroço.

Em decorrência disso, todas as segundas-feiras (dia da feira) lá pras duas da tarde, eu encostava no balcão, e ficava por ali, zanzando, como quem não quer nada, até que a paciência do padrinho esgotava-se, me mirava por cima dos óculos com aquele olhar de sardinha enlatada, pegava, normalmente “um cruzado” uma moeda de um metal branco parecendo prata, colocava sobre o balcão, empurrava na minha direção e intimamente, devia dizer: Vai encher o saco em outra freguesia….!!!! Eu saía dali correndo.

Moeda na mão, direto tomar uma “raspada”.

Raspada era uma espécie de sorvete de gelo raspado, vendido por um “cabra” de Sertânia, que despejava num copo imundo, lavado inúmeras vezes na mesma água, e na mesma bacia, uns pingos de uma groselha, saída de um litro de vidro também imundo, com gosto de coco, morango e outros sabores, feita lá sabe Deus como.

O “cabra” deve ter ficado rico, porque a matutada “caía matando” na raspada de gelo com groselha.

A concentração na barraca da “raspada” era tão grande, que o divertimento de Edmundo Blandino era comprar um cacho de pitombas, ficar do outro lado da rua, e à proporção que chapava as pitombas, arremessava os caroços na cabeça da matutada, e depois, observado pelo atingido, fingia-se “de morto…”.

Mas meu Padrinho Jovino era uma dessas figuras queridas por todos. Extrovertido, Brincalhão e Feliz, mesmo tendo um dos antebraços amputados se superava. Entre outras utilidades, usava o “toco” para apoiar o taco jogando sinuca. Jogava razoavelmente bem. Se naquela época houvesse campeonato de sinuca de “masters” com certeza ele seria o campeão.

Tinha uma família bem estruturada. Lembro de suas duas filhas. Luizinha e Maria Luiza. Ambas altas bonitas e fortes.

Uma delas, destacava-se por ter uma “comissão de frente” bastante avantajada”. Eram dois pilares de fazer inveja ao pão de açúcar.

Mas vamos ao mico do meu padrinho Jovino.

Campanha para Governador do Estado. Disputa acirrada entre Pelópidas Silveira (UDN) e Jarbas Maranhão (PSD).

De repente, surgiu nos céus de Custódia, numa segunda feira, dia da feira, um aviãozinho teco – teco jogando do alto propaganda política. Emporcalhou toda a cidade com retratos dos candidatos e cartazes contendo promessas que jamais seriam cumpridas. Qualquer semelhança com os políticos dos dias atuais, não é mera coincidência.

Dr. Jarbas Maranhão visitava a região. Em Custódia, entre seus cabos eleitorais estava meu Padrinho Jovino.

Visitado, Padrinho Jovino manifestou o desejo e a necessidade urgente de ir até o Recife. Incontinenti, Dr. Jarbas colocou a disposição do meu padrinho Jovino uma das duas vagas existentes no teco-teco de seis lugares, e que naquela ocasião apenas quatro estavam ocupadas.

Convite oportuno e imediatamente aceito. Bagagem arrumada às pressas. Partida imediata no carro Ford 29 de João Correia até o “campo de aviação”.

Lá estava o teco-teco. Pintado na cor vermelha e branca com umas letras e números pretos. A galera insinuou que o Dr.Jarbas perderia a eleição por que “era Santa Cruz.”

Se fosse Sport ou Náutico. (?). Não deu outra. Perdeu feio.

Aquele vaticínio não se confirmou integralmente, porque naquele ano, o velho Santa foi supercampeão pernambucano, vencendo o Náutico e o Sport duas vezes consecutivas numa disputa de três pontos. Esquadão igual aquele time, o Santa nunca mais formou.
Anibal, Diogo e Sidney, Zequinha, Aldemar e Edinho, Lanzoninho, Rudimar, Faustino, Mituca e Jorginho…..

Tempos depois, em entrevista, Pelé disse que Aldemar que já pertencia ao Palmeiras, foi o único que o “parou” sem nunca ter cometido uma falta.

“Seo” Jovino entrou no aviãozinho, sentou-se, o piloto deve ter tê-lo ajudado a afivelar o cinto. Porta fechada, motor ligado ESQUENTANDO, hélice girando, meu Padrinho olhou pela janelinha, virou para o passageiro ao lado e exclamou:

RAPAZ, O AVIÃO ESTÁ VOANDO TÃO ALTO QUE O POVO LÁ EMBAIXO PARECE FORMIGA.!!!

Intrigado, o companheiro de viagem olhou pela mesma janelinha e disse:

NÃO “SÊO” JOVINO ! É FORMIGA MESMO. O AVIÃO AINDA ESTÁ NO CHÃO.

Conta-se que até pousar em Recife, Jovino Costa Leão não disse uma palavra.

Fernando Florêncio.
Ilhéus/BA

Um comentário:

  1. Maravilha de texto, parabéns ao autor.
    Luciano Burgos Quinsan, Brasília.

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