16 de julho de 2013

Os medos de cada um - por Jailson Vital



Por Jailson Vital de Souza
Jalvital@gmail.com

Alma do outro mundo, alma penada; eu morria de medo. Ainda muito criança fui morar na Rua da Várzea. A casa tinha um quintal comprido, cercado por uma cerca de varas a pique. Atrás tinha um caminho que passava por trás de todos os quintais daquele lado da rua e mais adiante levava às ruínas do “cemitério velho”, como o chamávamos.

Essa proximidade da nossa casa com a porta do além me apavorava, principalmente nas noites em que vítima de um ataque de asma não podia dormir. As luzes se apagavam às 10 horas da noite e a fraca luz do candeeiro a querosene com sua luz bruxuleante dava movimento em alguma roupa dependurada na parede, aumentando a minha vigília. A minha mente enfraquecida pela doença e pelo sono, dava forma sobrenatural àquela roupa.

Vencido pelo cansaço eu conseguia adormecer, mas logo vinham os pesadelos. Personagens horrendos assemelhados à figura representativa do diabo que, eu tinha visto em algum livro vinham me atacar no quintal. No sonho o pavor era imenso diante daquela figura medonha e apesar dos meus gritos não aparecia ninguém para me salvar. Mas a mente fabulosa das crianças também cria os meios para escapar.

Então, não havendo saída eu dava um salto e começava a voar escapando do perigo de ser levado pelo diabo que, nos meus sonhos não voava. Esse pesadelo se repetiu algumas vezes, mas eu escapava sempre do mesmo jeito: voando. Tanto voei que terminei gostando e passei a usar dessa faculdade para me divertir. Voava por prazer e quando queria. Isso durou até a minha maturidade. E o diabo dos pesadelos? Deve ter ido para o diabo que o carregue, pois nunca mais atanazou os meus sonhos.

Cada época traz consigo os seus medos. Os de hoje, bem conhecidos, não incluem mais medo de alma penada ou do diabo, talvez. Os medos de hoje são mais bem reais e certamente e infelizmente mais danosos física e mentalmente. Os medos de antigamente eram transmitidos por nossos colegas quando contavam “acontecidos” fantásticos ou por nossos pais com o intuito de controlar melhor os filhos ou até porque acreditavam neles também.

O medo do diabo, como descrevi, era passado pelo padre, do púlpito, no sermão ou nas aulas de catecismo. A figura do demo era usada para inibir as crianças e adultos, no seu modo de agir, pois a lista de pecados era muito extensa e o diabo estava sempre a espera que alguém transgredisse as regras do bom comportamento.

Medo de Deus. Medo de Deus? Sim, isso mesmo. Do mesmo modo como a figura do diabo era usada, a figura pregada de Deus também. Deus era aquele que tudo via e estava sempre pronto a castigar quem saía da linha. Deus era uma espécie de “big brother”, o grande irmão do “romance” 1984 de George Orwell e chegava a ser representado em algumas gravuras por um grande e único olho. Esse conceito foi modificado pela Igreja que, prega hoje, Deus como o Pai amantíssimo e misericordioso.

Medo do pai. Hoje acredito que, poucas crianças têm medo do pai; o que não acontecia antigamente. Naquela época, a 40, 50 anos atrás o conceito de autoridade mandava que a obediência paterna e a disciplina devessem ser exercidas através de chicotadas e puxões de orelhas. O pai era temido e talvez também amado, mas esse segundo sentimento ficava bem oculto, pois era interpretado como uma fraqueza.

Medo de papangu. A figura medonha do papangu colocava qualquer criança em desespero. Quando pequeno, durante o carnaval, para ir da minha casa para a casa da minha avó era uma aventura. Eu fazia o trajeto por partes, correndo entre os pontos de parada seguros, vigiando se não aparecia algum papangu. Os rapazes que se trajavam de papangu vestiam geralmente perneiras e gibão e colocavam uma máscara tapando todo o rosto para não serem reconhecidos.

Outros envolviam o corpo em sacos de estopa, penduravam chocalhos na cintura que faziam um barulho disrítmico quando eles andavam ou corriam e usavam igualmente a máscara. Não podia faltar na mão um chicote que tinha uma ponteira, a qual produzia um estalido alto quando o chicote era brandido. A associação da vestimenta com o chicote apavorava até alguns adultos. Esses rapazes assim trajados saiam durante todo o carnaval, pedindo dinheiro e pregando susto.

Tormento, para mim, era quando morria alguém em Custódia. Eu não tinha coragem de ver defunto, pois isso estava associado ao medo de alma penada. Se fosse somente isso, tudo bem. Era só não ir lá vê-lo. Mas havia um costume, na época, de anunciar o óbito na difusora Duas Américas. E aí a coisa se complicava, porque esse anúncio era elevado à potência do absurdo.

Desde a hora do falecimento até a hora do sepultamento, toda a população era bombardeada com o anúncio e convite para esse “ato de piedade cristã” como anunciava a locutora, entremeada seguidamente, sem descanso, com a Ave Maria de Gounod, cantada por um tenor de voz grave, que mais parecia um lamento saído das profundezas. E não havia como fugir desse tormento, pois a Duas Américas tinha alto-falantes em toda a cidade. O jeito era esperar que o finado fosse finalmente sepultado.

Os leitores desta, conforme as suas idades irão alguns, identificarem alguma semelhança ou nenhuma. Como eu disse antes, são sinais do tempo. Cada tempo nos assusta de modo diferente. O importante é adquirirmos o conhecimento para que sejamos capazes de identificar os medos reais e possamos criar nossas defesas, e os medos criados pela nossa mente para que deles possamos nos tratar.

Um comentário:

  1. Jailson.
    Este teu medo era como que sendo um medo, "Comum a todos".
    Quando brincava de Guerra de peteca, cujas balas eram caroços de mamonas, nas cercanias da Igreja, dei bobeira, e ví o cadáver do Sr. Augusto Honório (este nome não esqueço nunca)que morrera afogado no açude de Quinca da Barra.
    Dentro de um caixão horroroso(chamava-se "Caixão da Caridade), também comum a todos - os pobres - sendo fotografado por Zé Pinto, o fotógrafo lambe - lambe de Custódia, cujo "atelier" ficava no oitão sombreado da Igreja.
    A enorme barriga do finado, inchada e cheia d'agua, impedia que o caixão fosse fechado. Imagem que jamais será apagada da minha memória.
    Foram mais de dois meses dormindo entre meu pai e minha mãe, coberto de cabeça e tudo.
    Nesses dois meses os "velhos" devem ter ficado muito "satisfeitos".
    Fernando Florencio
    Ilheus/Ba

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