7 de janeiro de 2013

São João em Custódia-PE - por José Melo

foto: Arquivo Célia Barros

Por José Melo

Até os anos oitenta, o São João em Custódia praticamente não existia, restringindo-se apenas a queima das fogueiras, na cidade, e os famosos forrós na zona rural. A partir daí começaram a surgir os arraiais, espalhados pelas ruas da cidade, que juntavam os moradores daquelas ruas, para brincar na beira da fogueira, com muita música, pamonha, milho assado, bebidas, e muitos fogos de artifícios. 

Mas, São João autêntico mesmo, era aquele realizado na zona rural, há muitas décadas atrás. A festa começava na véspera, e durante todo o dia as atenções eram dedicadas a preparação da festa. Colher o milho verde, plantado no dia de São José, para fazer a canjica, pamonha, bolo, pé de moleque. Cortar a lenha, transportar e armar a fogueira; varrer o terreiro, enfeitar com bandeirolas de papel de seda, e aguardar ansiosamente o sinal para o início das festividades: o tiro da riúna, desfechado no terreiro da casa, anunciando assim as homenagens ao santo do nordeste. 

A fogueira era cuidadosamente preparada para ser acesa. A fumaça da lenha verde fazia arder os olhos da meninada. Mas ninguém queria perder aquela noite festiva, que se iniciava exatamente com as brincadeiras dedicadas às crianças: pau de sebo, corrida do ovo, quebra panela, cabra-cega, etc. Tudo isso sem falar nos fogos de artifícios, entremeados pelo espoucar de tiros das riúnas e bacamartes. 

Em determinadas áreas da zona rural, formavam-se grupos de bacarmarteiros, com sua indumentária característica: calça e camisa de mescla Alvorada, azul, alpargatas de rabicho, chapéu de palha quebrado na testa, tipo cangaceiro, albornais à tiracolo, cartucheiras completas de munição de festim. Saiam visitando a vizinhança e juntando novos componentes. Por vezes, na manhã seguinte, já dia de São João, eles se dirigiam, cedinho, à cidade, para encerrar as festividades. Era um verdadeiro rebuliço na cidade. Tiros ensurdecedores, a fumaça fechava a rua, e aquele cheiro horrível da pólvora com enxofre invadia as casas. Animados, tocavam sanfona, e dançavam o xaxado exibindo orgulhosamente seus bacamartes. Em alguns grupos chamava a atenção a presença de uma criança ou uma mulher, devidamente paramentados, dando tiros de bacamarte. O interessante é que naqueles tempos, por mais bebida que rolasse, por maior que fosse o grupo, havia a mais perfeita ordem, jamais se registrando qualquer caso de desavença ou confusão. Para isso, o Chefe do bando impunha respeito e mantinha a ordem. Sua palavra era acatada na hora, e quem o desafiasse, estava desligado do grupo. 

Lembro bem de um grupo famoso pelo número de bacamarteiros. Era o de Zé Batista. Certa feita ele chegou a reunir cerca de trezentos bacamarteiros, numa festa de inaugurações promovida por Luizito, e que contou com a presença do Governador da época, Marco Maciel. Dizem que o Governador, que não conhecia grupos de bacamarteiros, inicialmente, ao descer do avião ficou assustado coma recepção: um verdadeiro bando de “cangaceiros”, tão originais eram os componentes do Grupo de Bacamarteiros. 

Um outro grupo famoso – esse não era de Custódia, mas de Sítio dos Nunes, era o de Luiz Andrade. Todos os anos ele comparecia a Custódia, para se encontrar com os grupos da terra. Figura carismática, Luiz Andrade tinha traços dos “galegos” europeus: alto, branco, olhos verdes, corpulento e voz grave.

Com o passar dos tempos, os grupos foram diminuindo, e com a chegada de novos entretenimentos, essa tradição praticamente acabou em Custódia. Creio nem mais existirem os Grupos, apenas aqueles mais fanáticos, que solitariamente ainda fazem ecoar pelos grotões da caatinga de Custódia, o rebumbar dos tiros de bacamartes, talvez como um lamento pelo fim daquela tradição, e um choro de saudade do São João de antigamente. 


Comemoração de São João entre 1973/74 no Ginásio Padre Leão ou Ernesto Queiroz.
Em pé: desconhecida, Tonho de Duquinha, Crystomeres, Luiz Cláudio Epaminondas, Elba Feitosa, Sérgio Murilo, desconhecida. 

Agachados: Fernando, Ana Cláudia, Fábio (irmão de Fernando) , Eliane Remigio, Adilson Veríssimo e Rejane Medeiros

Foto: Elba Feitosa



3 comentários:

  1. Zé.
    Que maravilha.Éramos felizas e não sabíamos.Me tire uma dúvida:
    Lembro bem da "roqueira" (que não tem nada a ver com cançarina de rock).Era feita com um pino de feixe de molas de caminhão.A mistura explosiva, nós mesmos fazíamos com cloreto (de que?) e enxofre comprados na Casa Goes.
    Já da "riúna" não tenho lembranças. Seriam as duas a mesma coisa. Apenas com nomes diferentes
    nomes?
    Sugestão: Vamos dar uma ressussitada nesta brincadeira? Quem poderia nos ajudar em Custódia?
    Fernando Florencio
    Ilheus/Ba

    ResponderExcluir
  2. Fernando:

    A roqueira era feito de um Pino de mola de caminhão. A pólvora era feita de salitre e enxofre.

    Já a Riuna ou bacamarte nada mais é que uma super espingarda, de grosso calibre, que é carregada pela boca do cano, com pólvora (caseira ou industrial). Provém da guerra do paraguai, onde foi largamente utilizada como arma.

    J. Melo

    ResponderExcluir
  3. Pois é Zé.
    Então a "riúna" é o mesmo "bacamarte".
    Imagina, nas visitas à Custódia, os visitantes fossem convidados a visitar o maior ecervo histórico da cidade. MUSEU MUNICIPAL.
    Creio quje seríamos pioneiros neste aspecto, em todo o interior do estado.
    Vamos à luta. CIDADE SEM HISTÓRIA É CIDADE SEM ALMA.
    Fernando Florencio
    Ilheus/Ba.
    Em tempo: Acho que Severino (do Rádio) poderia nos ajudar, apresentando um projeto na câmara, incluindo a disponibilização de um imóvel.

    ResponderExcluir